domingo, 24 de março de 2013

BEM-TE-VI

Marcos Antonio Dantas de Oliveira[1]

Promessa é dívida:

“Os agricultores do município de Canapi, no Sertão de Alagoas, ainda não receberam o farelo de milho e de soja para alimentação animal, promessa feita pelo governo do estado numa reunião ocorrida logo após o carnaval” [2].

Ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, “diz que transposição do Rio São Francisco termina em 2015” [3].

“Dilma Rousseff disse que a meta de seu governo é levar água do canal até a cidade de Arapiraca” [4]. No entanto, depois de 20 anos, dos 250 km previstos, 65 km do canal do Sertão foram inaugurados pela presidente Dilma e comitiva, em 12 de março, ao custo de cerca de R$ 15,3 milhões o km [com R$ 15,3 milhões compra-se cerca de 510 carros populares, ou faz-se 510 casas pelo Programa Nacional de Habitação Rural do governo federal. O déficit habitacional na zona rural de Alagoas é de 39.917 moradias (Ministério das Cidades, 2005)]. E Dilma prometeu mais 1,1 bilhão para 3ª e 4ª etapas com mais 45 km [5]. Aliás, os moradores do Sertão e do Agreste não devem deixar essa promessa vira anedota.

Enquanto isso, no Semiárido, em Palmeira dos Índios, AL: “ao lado da Barragem do Bálsamo, um buraco feito para desviar água denuncia que alguns fazendeiros decidiram não esperar por uma solução do poder público” [6].

Mas só uma certeza anima o sertanejo penitente, ele continuará rezando para que São José não o abandone de vez.

Será que São José está no começo de mandato, pois as chuvas não chegaram?

No Brasil, principalmente no Nordeste, famílias inteiras, principalmente os jovens, continuam migrando, ainda em êxodo rural, em resposta a sua situação de penosidade social e política; e agora, nas cidades ocupam lugares e ‘ganha pão’ insalubres e perigosos, ora como catadores de lixo e ou na prostituição e no tráfico de drogas, principalmente as crianças e adolescentes, e ora como cortadores de cana de açúcar – em Alagoas do ex-canavieiro Antônio Sabino: “Deus me livre voltar a cortar cana” [7], soluções para suas vidas indignas.

Assim famílias inteiras, em Alagoas, no Nordeste e no Brasil, continuam sua luta [uma ação política] pela posse da terra, da água, da segurança alimentar, da dignidade.

Ademais, para a melhoria das condições de vida desses rurícolas em seus municípios e regiões de origem é vital sua participação, um diálogo livre entre cidadãos iguais; “o diálogo, como encontro dos homens para a ‘pronúncia do mundo’, é a condição fundamental para a sua real humanização”, afirma Paulo Freire [Pedagogia do oprimido]. E ao contrário do que pensa os indivíduos, a esperança longe de ajudá-los a viver melhor, faz-lhes perder o essencial de suas vidas, no presente, a dignidade.

Doravante, o diálogo para a pronúncia do acesso e usufruto dos bens primários deve ser a prática dos rurícolas – dos agricultores e extrativistas familiares [quilombolas, caboclos, índios...], no que diz respeito às ações do Estado para diminuir a degradação ecológica, o êxodo rural e agrícola e a pressão demográfica nas cidades; e para garantir a ocupação do território com acesso a terra e a água, a segurança alimentar, o emprego e a renda decentes e legais, a escolaridade – “Alagoas gasta mais em diárias do que para erradicar analfabetismo” – “Em 2010, o montante chegou a R$ 16 milhões, valor é 11 vezes superior à quantia gasta no programa de Educação de Jovens e Adultos”  [8].

Aliás, o rurícola além de fornecedor de alimentos, fibras, energia e de mão-de-obra e transferidor de renda para a indústria, o comércio, o banco, e o Estado pode atrair visitantes tanto pela paisagem estética dos biótopos e biótipos como pelo seu vital e exuberante patrimônio imaterial. Para acontecer, é preciso que esses moradores garantam acesso às políticas públicas de financiamento de lavouras e criações, de pequenos comércios, de moradias e seguros, de rendas não produtivas e outras políticas ligadas aos serviços de educação, saúde, segurança pública, pesquisa agropecuária e extensão rural, ecoturismo, por exemplo; e assim dispor para consumo familiar, produtos e serviços saudáveis como para oferecê-los aos consumidores citadinos, como resultante da ação coletiva de cidadãos que dialogam sobre interesses privados e negócios públicos.

Essas políticas são fundamentais para sobrevivência dos rurícolas, para preservação, conservação e uso da biosfera e biomas como para os padrões de consumo de sociedades motivadas a atuarem no presente pelos princípios ecológicos, exaltados por Capra: diversidade, autonomia, interdependência, cooperação, flexibilidade; e garantam que os bens primários, proposto por Rawls: liberdade, riqueza, renda, autorrespeito, inteligência... sejam exercitados por todas as mulheres e homens em qualquer lugar, sincrônica e diacronicamente, permitindo-lhes melhorar suas posições sociais ao participar ativa, interativa e coletivamente do debate na esfera pública.

Melhorias no campo dependem de um esforço enorme de seus moradores-contribuintes-agricultores para dialetizar os debates, os embates, as escaramuças, ora postas, para entender como os mecanismos do desenvolvimento sustentável – durável [investimento, incorporação de mão de obra e ganhos de produtividade, controle dos recursos naturais e dos tributos, justiça social] e sua complexa rede de dimensões: ecológica, social, econômica e política podem no presente alterar sua crítica penosidade multidimensional.

E como rurícolas, homens e mulheres, cidadãos iguais e livres, ajam e reajam às proposituras hierarquizadas autoritariamente por agentes econômicos e do Estado que interferem sistematicamente para piorar suas vidas – com inacessibilidade aos bens primários.

Em tempo: Bem-te-vi é uma ave da família dos tiranídeos de nome científico Pitangus sulphuratus. Considerado um dos pássaros mais populares do Brasil, é um dos primeiros a vocalizarem ao amanhecer. Por isso, rurícolas, agricultores e extrativistas familiares [povos e comunidades tradicionais] amanheçam vocalizando sobre seu acesso e usufruto aos bens primários.  E indaguem-se,  sou sujeito da história?



[1] Mestre em Desenvolvimento Sustentável, membro da Academia Brasileira de Extensão Rural/ABER, extensionista da EMATER/AL, professor da Universidade Estadual de Alagoas/UNEAL  e membro do Comitê Permanente de Juventude Rural do Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável/CONDRAF
[2] Gazeta de Alagoas/19/mar/2013
[3] www.senado.leg.br/jornal/14/mar/2013
[4] Tribuna do Sertão/18/mar/2013
[5] Tribuna do Sertão/18/mar/2013
[6] Gazeta de Alagoas/03/mar/2013
[7] Gazeta de Alagoas, 27/fev/2011
[8] Extraalagoas.com.br.noticia, 24/jan/2011

domingo, 10 de março de 2013

QUERO meu bônus felicidade

Marcos Antonio Dantas de Oliveira

O Brasil está perdendo cerca de "14 bilhões de dólares anuais com o venda do NIÓBIO [o Brasil tem 98% das jazidas"] [1].
No Brasil, "a corrupção drena anualmente dos cofres públicos a gigantesca quantia de 85 bilhões de reais" [2]. A "corrupção em Alagoas desvia R$ 738 milhões em sete anos" [3].
Duas riquezas públicas entre tantas importantes [Nióbio e Imposto] para promover o bem-estar, o bônus felicidade, estão nas mãos de poucos brasileiros e alagoanos.
“Brasileiro teria de ganhar R$ 300 mil por ano para ser feliz”; “80% acreditam que dinheiro traz felicidade” [4].
Estão felizes em Alagoas, juízes e procuradores que ganharam um bônus milionário – “bônus natalino custou mais de 20 milhões aos cofres do Tribunal de Justiça do Estado” [5]. Esses vivem uma rotina secular garantidora de bem-estar com dinheiro do contribuinte.
E estão infelizes os extrativistas familiares da Amazônia que com a coleta de murumuru "garantem um ganho extra por ano de cerca de R$ 3.200" [6]; os agricultores familiares brasileiros, que em maioria produzem para o autoconsumo – “Somente as classes de área igual ou superior a 200 hectares oferecem remuneração superior ao salário mínimo” (ALVES et al., 2006); e os catadores de lixo de Pilar, em Alagoas, que fazem por semana R$ 60 [7].
Brasileiros, extrativistas, agricultores e catadores de lixo – esses contribuintes – vivem uma rotina secular de miséria [Regressividade da tributação faz com que os mais pobres paguem mais impostos], pois continuaram invisíveis ao artigo 6º da Constituição Federal – São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desemparados. Registre-se também o presente mas, em geral, ineficaz serviço de pesquisa agrícola e ATER [estatal e não estatal] e o baixo volume total e per capita do crédito rural destinado a essas categorias.
Um despautério: A secular vida difícil dos agricultores e extrativistas familiares [dos povos e comunidades tradicionais] e do rebanho nordestino, está potencializada nesta seca, a 72ª seca; contudo as ações do estado brasileiro continuam emergenciais e ineficientes, em Alagoas:
Barragem [do Bálsamo em Palmeira dos Índios] está abandonada em Alagoas há anos; "projeto de irrigação no interior esbarra na morosidade excessiva do Estado" [8].
"O Estado demora sete meses para construir cisternas" [9] – o governo tem depositado em sua conta, R$ 25 milhões desde julho de 2012, dos R$ 43,3 milhões do convênio com o MDS.
A Desenvolve anunciou em Santana do Ipanema, a linha de crédito, "Desenvolve Sertão, para atender todos os produtores rurais e pequenos empresários da região – disponibiliza R$ 15 mil por contrato com juros de 0,75 ao mês" [10]; este alto percentual caracteriza juros da usura, pois, a inflação de 2012 foi de 5,84% ao ano. E outro agravante: essas categorias estão falidas.
“Por conta do desastre que a seca está causando na região canavieira de Alagoas, vamos lutar por uma nova subvenção”, de R$ 5 por tonelada para R$ 10. “Precisamos também que o governo do estado de alagoas promova ações em defesa do fornecedor da cana na mesma proporção que o de Pernambuco”, cobra presidente da Asplana, Lourenço Lopes [11].
Governador Teotônio Vilela "chama Bolsa Família de esmola" [12] – o programa atende a 16 milhões de famílias e injeta na economia do estado 400 milhões, quase três vezes mais a economia gerada pelas usinas de cana de açúcar, 150 milhões de reais.
“Usineiros são beneficiados com isenção de impostos – Estado deixará de arrecadar cerca de R$ 60 milhões por ano só de ICMS do álcool” [13].
Secretaria Estadual da Fazenda [SEFAZ] "garante que há aumento na arrecadação" [14]. O Estado brasileiro arrecadou em 2012, cerca de R$ 1,5 trilhão em impostos. Tanto dinheiro!
É de sua conta saber como cidadão igual e livre, por que tanta miséria, principalmente, no lugar rural?
E uma notícia surreal: governo federal anuncia que em abril não existirá mais miserável [renda acima de R$ 70,00 per capitano país – E para todo aquele que ganhou em fevereiro abaixo de R$ 2.743,69 [abaixo desse valor, segundo o Dieese não atende ao artigo 7º da Constituição], o bônus felicidade seja real.




[1] http://www.jornalpopulacional.com.br/index.php/component/k2/item/1700-ni%C3%B3bio-o-metal-que-s%C3%B3-o-brasil-fornece-ao-mundo
[2]   Revista Veja, 26/out/2012
[3]   Gazeta de Alagoas,11/jul/2012
[4] Tribuna Independente/23/12/2012
[5] www.extralagoas.com.br/28/02/2013
[6] G1.globo.com/natureza/noticia//2013/02/coleta-de-murumuru
[7] Tribuna Independente/24/02/2013
[8] Gazeta de Alagoas/03/03/2013
[9] Gazeta de Alagoas/28/02/2013
[10] Tribuna Independente/28/02/2013
[11] Gazeta de Alagoas – Gazeta Rural/21/12/2012
[12] Gazeta de Alagoas/03/03/2013
[13] www.extralagoas.com.br/08/1/2012
[14] Gazeta de Alagoas/05/03/2013

domingo, 24 de fevereiro de 2013

ACORDAM para o bem-estar

Marcos Antonio Dantas de Oliveira

As mulheres, Maria e Tânia, entre tantas participantes do 1º Encontro Nacional do Movimento de Mulheres Camponesas do Brasil (Brasília, 18 de fevereiro)  comentaram [1]: "A terra por si só não serve, porque precisamos de uma infraestrutura que é estrada, energia, água, saúde pública", comenta Maria Cavalcante  [assentamento da Reforma Agrária em Alagoas].

Enquanto a ribeirinha Tânia Chantel, do Amazonas, "destaca a importância da reforma agrária e da garantia da titulação da terra para dar segurança a quem retira dela o sustento".

“É perfeitamente possível que as mulheres tenham descoberto pelo menos um dos dois fundamentos que, há 10 mil anos, deram início à completa transformação da economia do homem – a agricultura, o processo deliberado de semear, cuidar, proteger e colher culturas específicas, domesticando-as através da seleção natural das que melhor atendiam às necessidades do homem” (JAY, A riqueza do homem, 2000).

Ainda assim, “Mulheres ganham 76% do salário pago aos homens” [2], muitas sem renda.

“Mulheres são a maioria entre jovens fora da escola e do mercado de trabalho” [3].

Esses fatos geram situações em que as mulheres, em maioria, ainda não são protagonistas na esfera pública [cidadãs e livres], e na esfera privada [dos desejos materiais e vaidades] do processo ecológico e social; e nesse sentido, ainda não conseguem deslocar-se para melhorar suas vidas, principalmente as campesinas - as agricultoras estão em posição desfavorável no uso e acesso de ativos como terra, gado, maquinário, insumos, serviços de crédito agrícola, extensão de conhecimentos técnicos e capacitação, segundo a FAO (Estado Mundial da Agricultura e da Alimentação 2011).

O Banco Mundial "apontou que as mulheres têm mais probabilidades de ter um trabalho não remunerado do que os homens, além de maior chance de trabalhar em terrenos menores e em cultivos menos lucrativos e de dirigir empresas menores e setores com menos remuneração" [4].

Como reformar o ambiente social rural se a remuneração da agricultora é pequena e instável, muito menor do que um salário mínimo? No Brasil, a agricultura remunera com até um salário mínimo, os estabelecimentos com área inferior a 50 ha; no Nordeste, são 94% com área inferior a 100 ha e geram até um salário mínimo (ALVES et al., 2006); e mais precária e instável em Alagoas, 82% deles têm até 10 ha.

Por que a jornada ampliada das mulheres para cuidar dos afazeres domésticos, da labuta na lavoura e na criação, de doméstica em lares de terceiros [emprego em baixa, mas pela escassez há valorização da remuneração], e principalmente em cuidar da família [numa rotina de 14 horas diária]; e que muitas vezes esquece de si mesma. Que tal a sociedade e o estado entenderem sua importância e lhes dar direito a receber uma renda não produtiva, como política pública de bem-estar. Que tal Renda da Cidadania?

Desta forma, tornam-se mais dependentes do clientelismo, de viés autoritário e patrimonialista no arranjo e no ambiente institucional brasileiro; no que reforça DaMatta, em Carnavais, Malandros e Heróis: “Cada qual busca sempre estar no lugar social adequado, o que significa que o princípio da hierarquia é sempre aplicado, pois o maior temor social no Brasil é o estar fora de lugar, estar deslocado”.

Assim, as lógicas familiares: terra e água, trabalho, e família das agricultoras, extrativistas, povos e comunidades tradicionais suas famílias e outros rurícolas são afetados pela satisfação consumista que exige dessas categorias a compra de produtos que não querem com o dinheiro que não têm; todos ao crédito da usura [ora pelo cartão de crédito, pelo carnê, pelo crédito pessoal e consignado, e outras formas de transferir rendas, inclusive pela utilização do trabalho infanto-juvenil de seus filhos].

Além disso, transferem suas mais-valias, suas precárias e instáveis rendas aos setores econômicos: industrial, comercial, financeiro [e ao estatal], bem como aos consumidores de seus produtos e serviços, aumentando a desigualdade [no mundo do ter], anulando a igualdade política [no mundo do estar] e privando-os das liberdades [no mundo do ser]. Na economia não existe almoço grátis, afirma Milton Friedman [Prêmio Nobel de Economia].

A partir dessa desestrutura, aniquila-se a cooperação, a diversidade e a interdependência, elementos vitais do discurso e prática libertadora, porque o governo desestimula a participação política em decisões que envolvem escolhas de benefícios e encargos da cooperação social, e a potencialização de ações para o bem-estar com todos, pela baixa participação dessas categorias na esfera pública.

Agricultora e extrativista familiares, a dialética, a cidadania igual e a liberdade individual são motores que tornam realidade os artigos da Constituição Federal; sobretudo por operar, avaliar e corrigir as políticas públicas distributivas, redistributivas e reguladoras, e nesse sentido, manter a lógica familiar sustentável: econômica, social, ecológica, política e patrimonial em seus lugares de origem, aprendendo a ser e a viver junto com vida digna.

Por isso, "não se esqueçam das mulheres no novo contexto legislativo, caso contrário elas também se rebelarão", redigia Abigail Adams a seu marido John Adams em 1776 [futuro presidente dos Estados Unidos da América].

Então, quem faz a história: a agricultora Rainha do lar, o marido agricultor Plebeu, a Rica rainha do lar, o Capitalista marido plebeu?




[1]   www.ecodebate.com.br/2013/02/19/mulheres-camponesas-discutm-violencia-e-geração=de-renda-em-encontro-em-brasilia/
[2]   Dieese (noticias.bol.uol.com.br/2011/mar/02)
[3]   Alagoas em Tempo, 07-13/fev/2011
[4]  tribunahoje.com, 21/set/2011

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Reunião do CONDRAF - 05 e 06 DE DEZEMBRO DE 2012

Pronunciamento Marcos Antonio Dantas de Oliveira - FASER - Sindagro

sábado, 26 de janeiro de 2013

DEUS e o penitente

Marcos Antonio Dantas de Oliveira

 Há uma intensa discussão sobre a política de subsídios no mundo, especialmente aqueles que são destinados ao setor agropecuário primário. Em geral os países procuram praticá-la, inclusive o Brasil; entretanto, o governo federal ainda assim, troveja contra os países e as pessoas favoráveis à adoção de uma política de subsídios condizente com a alta carga tributária [“quase 4 de cada 10 reais da riqueza gerada viraram impostos em 2009” (1)]; nesse ínterim, o agricultor e o extrativista familiares [inclusive suas crianças e adolescentes] a fazem utilizando suas mais-valias.

Observe: O governo oferece o Pronaf com juros subsidiados aos agricultores e extrativistas familiares [povos e comunidades tradicionais]. Mas, o valor financiado de R$ 1.785,00 pelo Banco do Nordeste do Brasil S/A, em Arapiraca / AL, por exemplo, para um hectare de mandioca produzir 18 toneladas/ha, em 2012, foi baixo.

É impossível vida digna com financiamentos tão precários. Além disso, tais agricultores tornam-se mais vulneráveis ao mercado exigente: seja pela baixa renda bruta por hectare e renda bruta por homem, baixa produtividade da terra, baixa qualidade e oferta inelástica do seu produto, produção em larga escala de terceiros, dificuldade de uso de tecnologias e inovações, custos de produção irreais, preços aviltados e sazonalidade dos serviços e produtos. Juntos, eles, a sociedade e o governo agem pelo critério irresponsabilidade ecológica e social – “Mais de 27% do estado já começou a virar deserto” (2).

Tais fatores efetivam a vida indigna. Em seguida, endividados precarizam a sociabilidade familiar e do entorno, suas formas e padrões. Porém, invariavelmente, a maioria deles continua cultivando seus sistemas produtivos com suas mais-valias. É comum empregar o crédito da usura para assegurar o desenvolvimento e a produtividade da atividade agropecuária e extrativista, no entanto, nem sempre dá certo. E para aqueles que contraem o financiamento, o insucesso é previsível, pois o valor por hectare é aquém da necessidade em mão de obra [e obriga-os usar a mão de obra infanto-juvenil e também não remunerar a mão de obra da sua mulher], em aquisições de insumos e em práticas de uso, conservação e proteção dos recursos naturais em seus sistemas de cultivo e extração. Aliás, se para alguns é baixo, para outros o crédito é ausente.

Ainda assim, os agricultores e os extrativistas familiares, os povos e comunidades tradicionais ajudam a assegurar a dinâmica dos negócios e impostos nos municípios e estados, mesmo ofertando empregos sem carteira assinada. Faturam rendas indecentes – Em Alagoas, os agricultores familiares do programa PAA Leite recebem R$ 0,76 por litro de leite bovino, está abaixo do custo de produção real. Assim transferem sua mais-valia para a indústria; dificultam seu acesso aos benefícios da seguridade social; contribuem para aumentar o dano ambiental [degradação dos potenciais ecológicos] e social [trabalho e prostituição infanto-juvenil, velhice desamparada] e outros migram [em êxodo rural]. Por fim, a dialética sobre essa penúria é solapada pela notoriedade do Pronaf.

Diante dessa situação, o governo noticiou e ofertou o Pronaf, como estratégia garantidora da diversificação e aumento da produtividade, renda, emprego e qualidade de vida dos agricultores familiares e beneficiários da Lei da Agricultura Familiar e dos Empreendimentos Familiares Rurais. Anunciou 18 bilhões de reais para a safra 2012/13, com juros menores.

Ótimas ideias: o Pronaf Mais Alimentos. Entretanto, ainda é pouco dinheiro para escolhas tão caras: comprar trator, resfriador de leite, genética, recuperar solos, irrigar, por exemplo, para que a unidade produtiva planeje as atividades, ora por uso ou não uso dos recursos naturais, incrementando a produtividade da terra e da mão de obra; criando mercados cativos, inclusive pela indicação geográfica, a seus saudáveis produtos e serviços [por meio do associativismo, principalmente]; e assim assegurem rendas maiores e menos instáveis a si [e sua família] e aos outros trabalhadores da unidade social e geográfica. Quanto ao Programa Nacional de Habitação Rural / PNHR, o crédito à moradia é pequeno e escasso.

A partir disso, percebe-se que o governo é insensível para entender que o agricultor e o extrativista familiares precisam de financiamento que cubra seus reais custos de produção, e prazos longos para os investimentos; além de um seguro amplo e irrestrito, e eles não têm esse tipo de seguro. Sensíveis, eles subsidiam sua unidade produtiva e social com suas mais-valias e seus bens [com venda ou arrendamento] até o êxodo, e continuam pobres.

Exemplificando: em razão da estiagem – 12 milhões de cabeças de gado morreram no Nordeste, segundo o Conselho Nacional de Pecuária de Corte (3). Essa é a 72ª grande estiagem no Nordeste, segundo a Articulação do Semiárido / ASA (4) ; entretanto, os governos federal, estadual e municipal continuam a tratar esse evento como política clientelista – Em Alagoas, há 20 anos, fala-se do Canal do Sertão (5) , no Brasil, há 10 anos, iniciou-se a Transposição do Rio São Francisco (6), como forma de promover bem-estar à população do seu entorno com o uso múltiplo da água para abastecimento [humano e animal] e para atividades agrícolas. Com três certezas: Ambos vão continuar gastando uma dinheirama [já gastaram: o primeiro cerca de 1 bilhão de reais e o segundo 8,2 bilhões de reais]; ambos vão demorar para atender seus propósitos; e que o agricultor e sua família, mesmo com a diminuição e/ou perda dos ativos, dos quais os governos não têm um inventário, vão continuar transferindo sua parca renda para os setores industrial, comercial, financeiro e estatal, inclusive pelo uso da mão de obra de sua família. 

Aliás, por que não usar o Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza / FECOEP para garantir uma renda não produtiva a esses desvalidos? Por exemplo, os agricultores e extrativistas familiares atingidos pela seca receberiam um valor mensal [um cartão magnético] enquanto durar o período seco para dar conta da alimentação do rebanho. Como permanecer na vida rural e/ou agrícola?

Nesse período, os agricultores estão recebendo o Bolsa Estiagem, R$ 400 em cinco parcelas (7). E aqueles agricultores cadastrados no Garantia-Safra recebem um extra, duas parcelas no valor de R$ 136 cada. Com R$ 216, sendo R$ 80, do Bolsa Estiagem e R$ 136, do Garantia-Safra. Com esse dinheiro o agricultor alagoano e família compra o equivalente a 1,4 kg de farinha de mandioca por dia para ‘passar bem’, ao preço de R$ 5,20 o quilo, por exemplo. Os preços dispararam devido à oferta inelástica dos produtos – raiz e farinha de mandioca, principalmente, pelo descaso do governo federal com a política de estoque regulador compatível com as necessidades da sociedade e a seca prolongada deixou claro que faltam políticas públicas para esses agricultores permanecerem nessa atividade e no campo.

“Com mais dois meses de Bolsa Estiagem e dois meses do Garantia-Safra, estamos garantindo renda para 1,5 milhão de famílias que vivem no semiárido”, avaliou a presidente Dilma Rousseff (8). E continua Dilma: “Melhorar a vida de cada um deles [dos brasileiros] não é só uma exigência ética. Não é só um compromisso moral. É assegurar que esse país explore todo seu potencial, que é ter cidadãos e cidadãs brasileiros capazes de produzir” (9).

“Sem o governo, só nos resta apelar para São Pedro”, diz um produtor de leite (10).

A diversidade de beneficiários da Lei da Agricultura Familiar e dos Empreendimentos Familiares Rurais e da Lei de ATER, precisam de correções no texto constitucional para que outras políticas públicas atuem como estratégias eficazes a fim de ajudá-los a reproduzir suas lógicas familiares [terra e água, trabalho, e família] pelo acesso à riqueza pública e à riqueza privada. Essas leis, como: Programa Nacional de Habitação Rural e Política de Educação no Campo, são referências para melhorar suas condições de vida, por isso, apropriem-se.

Publicado pela Tribuna Independente, Maceió - Alagoas

(1) Revista Exame, especial - impostos, 08/09/2012
(2) Gazeta de Alagoas, 24/01/2012
(3) Noticiado pelo Fantástico da Rede Globo,20/01/2013
(4) Madeiro, uol.com.br,04/05/2012
(5) O Extra {de Alagoas], 26/01/2013
(6) Noticiado pelo Fantástico da Rede Globo,20/01/2013
(7) Tribuna Independente [de Alagoas], 20/07/2012
(8) Gazeta de Alagoas, 06/11/2012
(9) O Jornal [de Alagoas], 17/06/2012
(10)Gazeta de Alagoas, 22/01/2013

sábado, 12 de janeiro de 2013

OBSERVE como vive

Marcos Antonio Dantas de Oliveira



O curso da história tem mostrado que os interesses, ideologias e o poder forjam os valores morais e princípios legais da convivência humana. Dessa forma, é importante relatarmos os esforços em favor de um desenvolvimento fracassado, que acontece por não considerar os indispensáveis fatores: ecológico, demográfico, filosófico, cultural e afetivo; e toda a cadeia de relações existentes no centro de toda cultura; no caso, o estilo de vida rural e suas estreitas relações com a terra, com a natureza e com o citadino. Ademais, esse modo de vida é subdimensionado e subavaliado na maioria dos projetos de desenvolvimento. E os agricultores e extrativistas familiares, os povos e comunidades tradicionais  sentem a lógica de suas reproduções culturais – natureza e mitos, cultivos e extrativismos, suor e mais-valia, transmissão e posse, patrimônio imaterial e bem-estar – escapar-lhes por entre os dedos.

É conveniente ressaltar que o sistema capitalista baseia-se em uma ordem em que os atores evoluem e se comportam de acordo com normas que assegurem o fluxo da vida econômica [produz muita riqueza – apropriação, lucro e acumulação de rendas e riquezas e muito egoísmo]  e a reprodução do capital. Esgarça o tecido social pela impunidade, por exemplo,"combate à corrupção não atrai alagoanos" [1]. E por danos ecológicos [degrada as estruturas e funções ecssistêmicas]; contudo são abrandados por hipnótico merchandising feitos pelos ‘donos do poder’ [pelos que dão ordens e pelos que dão conselhos] e pelo Estado.

A bem da verdade, esse sistema continua produzindo muita riqueza privada e pública, principalmente nos últimos 30 anos. O PIB mundial está na casa dos 70 trilhões de dólares e a população em 7 bilhões; portanto, daria para todos repartirem o consumo; viverem uma sociedade convivial. Esse sistema concentrou renda e poder, gerando um colonialismo ambiental grave, exercido pelos ricos, entre países e dentro dos países, sobre os pobres.

Nunca os problemas ambientais foram tão graves, as dimensões são globais  historicamente, o homem assume-se como um fazedor de desertos [Euclides da Cunha: Os sertões]. Nunca a liquidação das culturas tradicionais foi tão perversa e global. Portanto, continua prevalecendo o projeto e a prática senhorial sobre os recursos e serviços naturais e os tributos, indo de encontro aos interesses da maioria das nações, dos povos, dos rurícolas, dos agricultores e extrativistas e suas famílias e, como resultado: os insustentáveis estilos de vida atuais comprometem os das futuras gerações.

Enfrentar esses conflitos é urgente, já que os extrativistas, os agricultores, seus familiares e suas comunidades em um contexto mundial em transformação, precisam provocar uma alteração social equitativa nos benefícios e nos encargos da cooperação social; afirmar os valores democráticos [liberdade, igualdade e fraternidade], e a eles se ajustarem sem negar a riqueza de elementos de suas tradições.

É nessa perspectiva, que o saber ambiental emula, articula a concertação entre realidades diferentes: conhecimento da vida moderna e da tradicional, do modo de vida dos ricos e dos pobres; e inteirando-se dessa realidade, diagnostica e orienta a construção de organizações sociais capazes de projetar tendências que corrijam os excessos dos sistemas: produtivo e consumista atual; e ensejem uma vitalização no sentido mais profundo da vida, e não uma ilusão, através da acumulação de rendas e de riquezas, não se deseja a permanência de um mundo comum forjado na Declaração Universal dos Direitos Humanos [1948]: “igualdade de todos os seres humanos”.

No entanto, "o mundo comum acaba quando é visto somente sob um aspecto e só se lhe permite uma perspectiva", enfatiza, Hannah Arendt [citada por Cardoso Júnior, 2007]. Sem mundo comum, o cotidiano dos indivíduos continua sofrendo grandes alterações, e elas são ruins para a maioria da população alagoana, brasileira e mundial, pois seus modos de produzir, consumir, distribuir os bens e serviços, de lazer, de proteção aos ecossistemas, de salvaguardar o patrimônio imaterial estão em franco processo de esgotamento social, tanto pela degradação dos solos e águas [baixas produtividades], como pela baixa remuneração das atividades, baixa escolaridade, baixa eficácia das políticas públicas [em geral], alto grau de informalidade nos empregos, rendas e mercado, e  velocidade da tecnologia informacional, por exemplo.

E, neste contexto, o agricultor e o extrativista familiar [povo e comunidade tradicional] dão conta de que suas lógicas familiares não sobrevivam sem as relações existenciais com a natureza [ciclo da vida],dialéticas, cidadãs e libertárias de homens e mulheres [adultos, jovens, crianças, citadinos e rurícolas], ricos e pobres; pois, “cada pessoa possui uma inviolabilidade fundada na justiça que nem mesmo o bem-estar da sociedade como um todo pode ignorar. Por essa razão, a justiça nega que a perda da liberdade de alguns se justifique por um bem maior partilhado por outros” [Rawls, 2002]. Então, todos ao diálogo e ao compromisso.


[1]  Tribuna Independente, 10/dez/2010



 Publicado pela Tribuna Independente, Maceió - Alagoas, 2012






domingo, 23 de dezembro de 2012

Para além do NATAL

Marcos Antonio Dantas de Oliveira

Solape os pecados capitais [gula, inveja, preguiça, ira, soberba, avareza, luxúria], o egoísmo – “Mendicância cresce em período natalino” [1]. E erradicá-los: é protagonizar, é cooperar, é ajudar a promover convicções, responsabilidades e estratégias que garantam a reciprocidade como fator indivisível para o desenvolvimento das pessoas e das comunidades.

Celebre a vida! Este objetivo é alcançado se sustentado pelo sentimento de pertencimento a um lugar – como os povos da floresta; pelo sentimento existencial – como a mãe que amamenta sua filha; pelo sentimento de solidariedade – por laços afetivos; e pelo sentimento de cooperação – por ajuda mútua nas relações sociais.

Esses sentimentos são encontrados com intensidade e riqueza na vida rural dos povos e comunidades tradicionais, dos agricultores e extrativistas familiares, e de outros rurícolas que [re]construindo esses ambientes, ora de aproximação com as pessoas, fazem-nas reviver em si. Daí a origem e a opulência do caráter emancipador, conservador e utópico dessas categorias em sustentar e satisfazer-se em seu labor, em sua ação para demandar os prazeres materiais, culturais, lúdicos e espirituais. Nas comunidades rurais, o Natal é comemorado com rituais próprios, que dão uma conotação vigorosa aos seus modos de vida, assim pressupõe a existência de relações sociais [e religiosas com fervor] e ecológicas [com a natureza e seus mitos] intra e intergeracional.

Esse modo de vida não é somente uma ação normativa em si; é um estado de [da] vida. É renovado pelo diálogo das famílias e das pessoas como entre elas. Do autorrespeito das pessoas e comunidades pela decisão de cumprir princípios e responsabilidades; da predisposição em renovar essas atitudes e comportamentos; e da boa vontade dessa geração em garantir a identidade, a história e os valores culturais dos povos sob a guarda dos princípios ecológicos exaltados por Capra (2002); indagar qual a nossa disposição para partilhar o uso e o não uso dos recursos e serviços naturais: a produção, o consumo, o lazer aos presentes; e assegurar também às futuras gerações vida saudável.

E na esfera pública, ao exercitar à cidadania igual, apropriar-se dos benefícios e encargos da cooperação social. E ao dialogar com os valores, crenças e tradições, a cultura local encontra indagações e respostas criativas para superar o desejo utilitarista de uma cultura global em produzir bens e serviços em volumes que ninguém terá tempo de consumi-los; e assim diminuir o fosso entre aqueles que têm as condições materiais e imateriais para realizar suas demandas e desejos, e àqueles desprovidos dos bens primários [riqueza, autoestima, liberdade, felicidade...] pelo difícil acesso à riqueza, privada e pública [inclusive aos tributos].

Assim, o homem e a mulher vão se definindo por sua capacidade de libertar-se, por sua história, por sua inquietação moral, e por aperfeiçoar-se ao longo da vida; eles, no particular e no universal, contemporizam-se para encontrarem-se na história. E ao escrevê-la revive, vive o dia a dia, garante sua continuidade.

Aliás, no período natalino, nesta festa cristã, a história da humanidade é recontada e atualizada com o intuito de iluminar o coração e a mente para o exercício da boa vontade; como auxiliar no enfrentamento de conflitos, ora pelos atos de brutalidade, indiferença e corrupção como pelo trabalho de crianças e adolescentes nas carvoarias, lixões, prostituição etc.; das relações indigestas entre os credos; entre o bilionário e o que não tem o tostão ou pouco tostão; como de si para si.

Esses conflitos confirmam: “o homem desacomodado não é mais do que um pobre animal, nu e dividido”, diz o Rei Lear [Shakespeare]. Ignorá-lo ou fingir ignorá-lo é forjar as relações consigo, a natureza e o mundo.

Celebre o nascimento de Cristo! Celebre no encontro entre as pessoas, as virtudes [Caridade, Castidade, Diligência, Humildade e Generosidade]! Celebre o amor! Celebre a vida!

E Boas Festas, aos rurícolas, aos agricultores, aos extrativistas [...quilombolas, quebradeiras de coco, caboclos e índios] e aos citadinos.

Publicado pela Tribuna Independente, Maceió - Alagoas, 2012





[1]  O Jornal, 21/dez/2010

domingo, 2 de dezembro de 2012

Liberdade ainda que TARDIA

Marcos Antonio Dantas de Oliveira


No Brasil [1], a participação na renda total dos 10% mais pobres em 1960, era de 1,9%, cinquenta depois regrediu, em 2011 foi de 1,6%; e a renda dos 10% mais ricos que era de 39,6% praticamente continuou a mesma 39,3%. Mas o discurso daqueles que dão ordens e daqueles que dão conselhos, é que a desigualdade vem diminuindo.

Em Alagoas, vida caótica, mais de 60% da população ganha até ½ salário, em maioria, rurícolas, agricultores, extrativistas, [povos e comunidades tradicionais] trabalhadores de aluguel e suas famílias. Outro dado, o déficit habitacional rural em Alagoas é de 40.000 lares (Ministério das Cidades, 2005).

Maceió e Arapiraca, principalmente por êxodo rural como por empobrecimento de citadinos, a favelização. Essa miséria está em expansão, da pouquíssima renda ao maltrato à natureza, do precário serviço de saúde e educação à crescente violência: roubos e homicídios, trabalho e prostituição, também por aqueles de menor de idade –“Meninas se prostituem por apenas R$ 2" [2] ­– um despautério.

E como o lugar rural está associado à ausência de facilidades sociais de toda ordem e, diante da débil ordenação política, social e patrimonial, seu desenvolvimento está ao capricho de políticas públicas clientelistas como conformistas. É visto como o lugar do atraso [ignorância e superstições], caracterizado pela pobreza [econômica e política - baixíssimo exercício de cidadania igual] e por indicadores sociais baixos.

Ainda assim, adultos, adolescentes e crianças dessas categorias, enquanto coletores, caçadores, produtores e consumidores de bens e serviços da natureza não dissociam o local do trabalho, da moradia, do lazer de suas manifestações culturais; por isso, neles o sentimento de pertencimento não é retórica, é vida compartilhada. Nesse sentido encantam-se com os biótipos, biótopos e biomas [pela harmonia aparente]; pois, eles relacionam-se estreitamente do modo de produzir, consumir, divertir ao assumir responsabilidades com a família, a vizinhança e a natureza – das relações de produção ao temor a Deus, do uso e não dos recursos e serviços naturais ao controle dos tributos.

Esta ocorrência assevera o processo de dominação e controle social [que se dá na esfera privada] por uma minoria rica citadina. E os rurícolas, agricultores e extrativistas familiares [povos e comunidades tradicionais] usam sua lógica cultural: natureza [terra, cultivos e mitos], ocupações [trabalho e renda], e família [mais-valia, patrimônio imaterial, sucessão] têm seus rituais e ritos de passagem ameaçados pelas dificuldades para incorporar novos hábitos e tecnologias por estarem descapitalizados, serem analfabetos, e assim reproduzirem-se e fixarem-se ao lugar rural. 

Contudo, o lugar rural por apresentar laços de proximidade, vizinhança e confiança entre seus moradores e respeitoso com a natureza aumenta a capacidade do rurícola, do agricultor e extrativista familiares de desenvolverem, sustentarem e aperfeiçoarem ao longo da vida suas lógicas familiares: podendo até acumular riqueza privada, ao pagar os tributos fiscaliza-os para beneficiar-se da riqueza pública.

Essas categorias têm papel relevante como usuário, coletor, produtor de alimentos e energia, e também como protetor da natureza atendem aos interesses de bem-estar da sociedade e da governabilidade do estado. E assim, os acadêmicos averiguam que eles não sucumbiram aos processos e efeitos da racionalização capitalista, devido ao vigor de  suas lógicas e das amenidades naturais e rurais; e ainda atraem novos moradores e turistas vindos da cidade.

É no locus da política que se dar o debate sobre o controle dos recursos e serviços naturais, tributos, e das políticas públicas [distributivas, redistributivas e reguladoras e constitucionais], dever ser caracterizado pelas liberdades reais, interesses particulares e negócios coletivos; é o planejamento principalmente o estratégico, o instrumento definidor de políticas públicas [ações, orçamentos] que visem não só ao conforto material, mas a busca incessante por qualidade de vida, felicidade, no presente, para além do viés normativo ou ideológico. É estratégico para promover o Desenvolvimento Sustentável [Durável]. Contudo, a problematização do Desenvolvimento Sustentável Rural [conflitos, gestão, justiça social] de tímida não conseguiu sair dos gabinetes, e nas cidades pequenas e no meio rural nem abstração é.

Aliás, as relações de interconhecimento e os vínculos com as cidades devem buscar não só as interações, mas também reconhecer os conflitos e as estruturas envolvidas; e a dialética, a cidadania igual e a liberdade individual [argumentações, mediações e consensos] são caminhos para solucionar as relações de produção, de consumo, de respeito consigo, aos outros e a natureza, no presente e no futuro – Os povos: Macuxi, Taurepang, Patamona, Ingaricó, Uapixana e Wapichana têm suas terras [em Roraima] demarcadas (Petição: 3388 do STF): a garantia do direito de ser [espécie e indivíduo] de ter [abrigo, alimento, sexo]. Enfim de sustentar seus modos de vida, bem como garantir a diversidade ecológica na bacia hidrográfica para todos os povos, hoje e amanhã.

Sobre sua vida caótica, nenhuma categoria [o eu, o tu ou o nós] o aprisiona absolutamente. Liberta-te, tu estás no centro do debate sobre o uso e controle dos recursos naturais, tributos, serviços e políticas públicas, sobre dignidade.

Publicado pela Tribuna Independente, Maceió - Alagoas, 2012

Em tempo de Liberdade Tardia, a poesia de 
Ivanildo Pereira Dantas

A VOZ GRITANTE DA SECA EM VERSOS

A seca... a seca é uma catástrofe...
a seca é animais mortos na beira da estrada
açude seco e solo rachado
mulheres e crianças carregando água...
em latas, baldes e potes de barro

A seca, a terra e a água
junta-se a alma do povo sertanejo
deixando-o sem esperança
sem comida, sem perspectivas de vida
sem teto num calor forte e muito clamor

A seca não queima só a terra e as plantações
queima famílias, animais e corações
desidrata e mata de fome
quem antes de tudo era um forte
e alimentava esta nação

A seca não gera desenvolvimento
gera dificuldades sociais para os que habitam a região
provoca falta de recursos econômicos
gerando fome e miséria
ao povo forte do sertão...
também gera tristeza
fome, amor e traição
revolta, miséria e dor
saque e tentações

numa terra de paixão e de amor
Na seca aparece de tudo
os políticos inescrupulosos e desonestos
o jeito hipócrita, e maldoso de governar
ações paliativas e as falsas promessas
e a omissão da sociedade em não querer enxergar.








[1]  Revista Veja, 10/out/2012
[2]  Tribuna Independente, 25/mar/2012