domingo, 18 de agosto de 2013

JOSÉ, um estado da [e de] vida

Marcos Antonio Dantas de Oliveira

Fui ao delírio ao assisti na tarde de sábado, na tv Senado, a melancólica, a extasiante, a libertária poesia – JOSÉ – de Carlos Drummond de Andrade; sensível, refleti sobre os brasis de Capistrano de Abreu; e com os pés no chão enxerguei o Brasil real dos políticos-príncipes: Com regalias e privilégios para esses poucos desse Brasil – por exemplo, custo mensal de um deputado federal de R$ 138.000,00[1]  Vivem na luxúria, felizes por serem bancados pela sociedade.

Ouvi o Brasil, a sociedade, surreal que banca esses príncipes – Agricultor,“participante do Programa Alagoas Mais Leite e do Balde Cheio, e cuja propriedade virou referência em gestão e melhoria das condições de produção com aumento de renda. Antes de ser atendido pelos programas, ele adquiria com a venda do leite apenas R$ 80 por mês. Atualmente, a renda dele chega a R$ 1.800 por mês só com a venda do leite”[2] – E dessa renda familiar baixa, sobra trabalho penoso, diouturno; e por esse trabalho recebeu o prêmio estadual e nacional de empreendedorismo, concedido pelo Sebrae/AL, na categoria agronegócio.

E com a voz sem ruídos, indago, e agora, José? 

          A festa acabou,
          a luz apagou,
          o povo sumiu,
          a noite esfriou,
          e agora, José?
          e agora, você?
          você que é sem nome,
          que zomba dos outros,
          você que faz versos,
          que ama, protesta?
          e agora, José?

          Está sem mulher,
          está sem discurso,
          está sem carinho,
          já não pode beber,
          já não pode fumar,
          cuspir já não pode,
          a noite esfriou,
          o dia não veio,
          o bonde não veio,
          o riso não veio
          não veio a utopia
          e tudo acabou
          e tudo fugiu
          e tudo mofou,
          e agora, José?

          E agora, José? 

          Sua doce palavra,
          seu instante de febre,
          sua gula e jejum,
          sua biblioteca,
          sua lavra de ouro,
          seu terno de vidro,
          sua incoerência,
          seu ódio - e agora?

          Com a chave na mão
          quer abrir a porta,
          não existe porta;
          quer morrer no mar,
          mas o mar secou;
          quer ir para Minas,
          Minas não há mais. 

          José, e agora?

          Se você gritasse,
          se você gemesse,
          se você tocasse
          a valsa vienense,
          se você dormisse,
          se você cansasse,
          se você morresse... 

          Mas você não morre,
          você é duro, José!

          Sozinho no escuro
          qual bicho-do-mato,
          sem teogonia,
          sem parede nua
          para se encostar,
          sem cavalo preto
          que fuja a galope,
          você marcha, José!
          José, para onde? 

         Celebre Carlos Drummond - JOSÉ http://www.youtube.com/watch?v=CaexXJ6UFnw





[1] ISTOÉ, 24 de julho de 2013
[2] Agência Alagoas 16 Agosto de 2013


13 comentários:

  1. Maravilhada com o texto. Vanessa

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  2. Vamos acordar José! Mauricio

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  3. Conciso e oportuno. Carlo

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  4. Precisamos cobrar a prática do discurso do governo. Toninho

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  5. Quanto custa produzir um litro de leite, hein Marcelo. Marcos

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  6. Profunda sua observação. susana

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  7. Gostei do resultado da poesia com a vida diária. Gabi

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  8. E como prêmio mesmo faz o trabalho como penitência. Oto

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  9. Estou repassando esse texto para outros colegas. Gil

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  10. Curto e grosso.hélio

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  11. Fora do discurso governamental. Muito bom. Artur

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  12. Está antenado com a penúria da grande maioria dos agricultores familiares. Continue com sua escrita. Paulo

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  13. Marcos,
    Muito bom esse artigo, e principalmente a analogia feita a música José. E irônico é vê que no senado federal e estadual existem muitos que querem vistos como "Josés".
    Cada vez mais admiro você que dissemina tantas sementes em prol de uma melhor qualidade de vida para os mais fracos e oprimidos.

    Tenha um bom dia,
    Thereza Christina Braga Ribeiro

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